terça-feira, 3 de maio de 2011

Azilo


'Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira'
                                                                          Adélia Prado




           Desistência. Meu corpo desfalece, minha mente se entrega e eu já não quero mais lutar. Nem fingir ser forte ainda consigo. A base de todos, a força, a razão, o juízo que antes me rotulavam agora não passam de embalagens vazias. Acabou-se todo o auxílio que eu podia prestar. Esvaiu-se toda a minha habilidade de apaziguar, reunir, pacificar. 
                   E com toda a sensatez que me decorava, foi-se embora minha calma, fugiu minh'alma e escondeu-se meu sorriso com minha alegria, que há muito não encontro mais. 
         
       Me vejo numa prisão. Porém ela não prende meu corpo, mas tudo o que o move. Quando minhas mãos a atacam e tentam libertar o que resta do meu eu, meu esforço se mostra inútil. Nada pode me soltar agora. Assim, só me resta desistir de tentar mudar a realidade que há muito não reside em minhas mãos. 
            Afinal, quando é a parte da bonanza?? Quem é o responsável por julgar se já penei o bastante, e me libertar? Quem me condenou, quem decidiu a minha pena? Qual foi o mal que outrora causei, e que agora me submete a esta pena?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Veneno

  Envenena-me como fazem os peçonhentos. E como sorrateiros que são, invade-me também aos poucos, sutilmente; às vezes nem te percebo me dominar. 
   Tão lento quanto se aproxima, olhando fundo e firme em meus olhos, olhar penetrante como só o teu. Tão leves quanto teus dedos, sedosos, ágeis, minuciosos ao me tomar para si. Tão suaves quanto teus lábios, que docemente roçam nos meus buscando uma fenda por onde aplicar teu veneno.
     Assim tão sutis são tuas artimanhas de me envolver, de me ganhar. Astuto, perverso, diabral, me traz as mais sórdidas tentações num simples e malicioso olhar de víbora cruel.
        Veneno este que me explora, me corrompe e corrói meu eu em translúcidas manhas de reciprocidade. Mostra-se também frágil ao meu efeito a cada nota dessa melodia. Faz-me escrava e escraviza-se sem pensar, faz-me escrava e faz-se meu: servo leal de meus caprichos.